Quinta-feira, 26 de Junho, 8h.
Estava dormindo quando meu irmão anunciou: "O Appa morreu". Em meio ao desvaneio, em que parece que a sabedoria não parece guiar a razão de "estou acordada" ou não, respondi: "mentira".
Meu irmão que costuma brincar sobre diversos temas, jamais ousou brincar com a morte. Sentei-me na cama e talvez a minha expressão de descrença e sono, deu lugar ao desespero: "Morreu?!". Ele assentiu com a cabeça e repete o anúncio: "Morreu. Tá lá na calçada da vizinha".
Engraçado como parece que as suas orientações básicas: levantar da cama, colocar algo nos pés para que não tenhas um choque com o chão gelado, trocar de roupa, escovar os dentes,... mostram-se desordenados. Levantei em um pulo e caminhei em passos largos até a porta que permitia ver a rua. "Você está de pijama". "Estou de pijama? Me trocar". Coloquei a primeira roupa que avistei: uma legue vermelha com uma blusa antiga de "Não use drogas". Penteei o cabelo com as mãos, lavei rapidamente o rosto e a boca e me lancei desorientada na rua.
Há poucos metros de distância, eu avistei a criaturinha de pêlos escuros que mais amei durante esses três anos e pouco: meu cachorro.
Ele estava de costas, deitado rente ao meio fio. Os olhos abertos e sem nenhuma evidência de atropelamento. "Meu lindo... O que houve?", as poucas palavras praticamente mudas que se soltaram ao ar. A imagem dele embaçou e as lágrimas escorreram pelo rosto sem dó. Eu o alisei e queria abraçá-lo... O corpinho ainda aquecido pelo sangue quente... por um segundo duvidei se realmente estava sem vida. Acariciei-o no rosto, como costumava fazê-lo, e então vi um líquido escorrer pela sua boca.
Eu o via em intervalos: as lágrimas não cessaram. Lembrei do seu primeiro dia em casa, em como eu fiquei fascinada pela beleza graciosa dele. Os olhos grandes e em tom castanho escuro, parecia causar receio em alguns, mas à mim, sempre foram meigos e expressivos.
Minha mãe se aproximou com uma caixa e o colocamos. (Pouparei você aqui de alguns detalhes).
Entramos e o coloquei na mesa que fica no quintal, rodeada de flores e onde o flaguei algumas vezes sentado ou deitado. Continuei o acariciando e inevitavelmente, chorando... (Incrível que nem mesmo uma Lua em Capricórnio consegue 'controlar' as emoções neste momento).
Eu olhava para meu outro cachorro, como se dissesse: "Perdemos ele, amor". Não sei se ele realmente retribuía a compaixão, ou se só estava absurdamente calmo, me olhando.
Decidi enterrá-lo no sítio da minha avó que não ficava muito longe. No meio do caminho, descobri, em duas versões, o que havia acontecido.
Talvez seja de suma relevância constatar que, o meu pequeno ente querido era conhecido por amigos, vizinhos e familiares como "estressado" ou "mau humor". Essa fama se deve aos seus modos de se manifestar, muitas vezes com latidos e rosnadas. Nunca mordeu alguém, exceto eu quando tentei separá-lo de uma briga com o meu outro pequeno amado. Fora este fato, bastante compreensivo até, nunca atacou.
Moro ao lado de uma escola infantil, e por alguma ou ausência de razão, ele não suportava carros. Corria atrás deles como podia. E junto à isto, eu, que não moro só, convivo com pessoas afetivas de opiniões opostas. Bem, não tanto oposta assim... Ele gostava de passear às manhãs e noites. Aliás, ele adorava passear em qualquer horário. "Vira-e-mexe", como diria minha mãe, ele arranja um jeito para escapar para rua. No entanto, tanto as manhãs como as noites calmas, ele tinha acesso livre para passear. Percebemos que isso o deixava mais calmo... e quando sol estava se pondo e a noite se aproximava, eu mesma caminhava com ele e o outro, numa praça próxima de casa.
Este era só mais um dia que passeava e, em dois minutos já estava ao pé da mesa, disputando por um pedaço de pão francês. Mas neste dia, ele não voltou. Ouviram um gemido na calçada e foram ver. Lá estava ele gritando (o que chamaram de dor), seguido de tremedera no corpo todo (ao qual chamaram de convulsão). E depois... já sabemos.
Um vizinho disse que ele corria rente ao pneu de um carro, quando ao cair (não sabendo se ele bateu no meio fio com a cabeça ou foi apenas o pneu), levantou e caminhou até a calçada da vizinha.
O som da inchada com a terra seca, parecia discussão. A inchada bateu várias vezes até a terra, aos poucos, começar a seder. E lá estava eu, segurando nos braços a caixa com o corpo. (Sim, agora era só o corpo).
Agora lembrando, gosto de pensar que ele apenas estava adormecendo.
O colocamos no buraco improvisado, o corpo tosado, cuja tosa foi feita no sábado anterior por mim. A primeira e última tosa...
Desculpe se pareceu dramático. Os sentimentos quando se encontram com facticidades como estas, tendem a ser melancólicos. Acredito que há na saudade o tom menor, como desintonia com o movimento do agora.
Como diria a própria Medeiros:
"Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche."
De quinta para cá, mergulhei em trabalho. Nem livros ousei ler. Qualquer oxigênio que possibitasse lembrar, evitava. Alguns momentos deu certo, outros não. Apesar do trabalho e estar com os amigos à par da situação, chegar em casa era vê-lo à minha espera. Aí que penso ser uma boa sacada da Martha: "Saudade é não saber". Não há receita pronta que nos oriente o que fazer quando a lembrança parece ser bem melhor que a realidade. Até mesmo acariciar o outro, é lembrar.
Lembro dele a todo momento e em qualquer canto da casa. Lembro dele enquanto abro um sorriso para os amigos, embora o pensamento esteja nele. Esteja em voltar para casa e não vê-lo, em não escutá-lo latir. Sinto falta do cheiro. Sim, eu adoro o cheirinho deles.
Uma amiga há uns pares de anos atrás me disse: "Saudade é não saber se você viveu mil dias sem alguém ou se viveu o mesmo dia mil vezes". Talvez essa seja a sensação do agora.
Assim, escrevo muito mais para registrar ou para aliviar. Escrevo do meu apego. Eu gostaria de dizer para ele antes deste fato, o quanto eu o amava, o quanto continuaria amando. Mas sei que em três anos e mais alguns meses, o amei com toda a intesidade possível. Eu o abracei até mesmo, logo depois que ele me mordeu...
E por fim, ontem olhando para o lugar que ele foi enterrado, lembrei de uma conversa com uma professora querida, de um mês atrás, mais ou menos nestas palavras:
"Permitir que nossos entes se vão. Permitir que eles possam morrer..."
O afeto não está no físico, não está no alcance da visão e nem nas distâncias... Não está no outro! Amar só existe amando. Só se ama praticando. Ainda que o ame com toda intensidade de amar, quero permitir que ele se vá. Afinal, ele morreu como viveu: livre.
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