quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Tic-Tic Turu-Turu

O ano virou e o mês está por acabar... Como justificar a ausência?
Em trinta dias amei, considerei, apaguei... Mandei porta fora tudo que sobrou.
Como esquecer da traição de relações plásticas quando oferecemos o vidro sincero e transparente da essência de quem gosta notavelmente?


A faxina da vida mal começou... E eis as lembranças expostas...
As bonitas também se mancharam.
Não há como remover com perdão uma tinta quando mancha o coração.
Troquemos as cortinas, tiremos os pós do velho e nos abrimos, janela.


        O inverno passou, o verão chegou e água secou.
Resta renovar, inovar e inspirar... Para sobreviver é preciso fé e coragem com muita criatividade.
Mãos à obra! Já estão dobrando as horas...


quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Para todo lado

Do outro lado, um canto
Em cada canto um bocado de lados,
Há lados desalmados,
Lados que são apenas cantados,
Lados que encantam por todos os lados...

Todos os lados, são apenas lados, 
Uma história, um metrô um rio e duas flores,
Lados que lado-a-lado são um, que fazem de um, plural...

Lados que às vezes são laços, 
Laços que nos enlaçam,
Laços afetivos para além de sanguíneos,
Laços que muitas vezes embrulham memórias...

Laços que se entrelaçam e nos lançam,
Lados que nos lançam em entrelaço,
Lançados estamos para todos os lados...



sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Pensar em ti

Eu pensei... Penso sempre e a cada momento.
É bem verdade que estou constantemente pensando em você.
Penso nas lembranças e elas são em mim, como perfume misturado à pele!
Penso em ti sempre quando não quero pensar. Penso até mesmo quando penso que não estou a pensar.

Penso nas horas, nos caminhos e no destino.
Penso nas horas gastadas inutilmente, nos caminhos que não se cruzam e se o destino existe de fato.
Penso na saudade dos minutos, na estrada e avenida que te procuram e no destino que não consigo me decidir se acredito ou não.

Penso quando penso que estou gostando de alguém. Se estou gostando de fato ou se estou doando o que não pude doar à você.

Não penso como sinais elétricos na cabeça.
Penso com a alma, com as batidas do coração e com a força com que ele pulsa.
Penso se minha veia está ligada à sua, se o meu som ecoa no seu orgulho e se resta-nos um abrigo.

Penso, que embora pensante constante, não me sobrou nada de ti do que memórias.
Não há migalhas de rancor e ódio, não há rastro de vingança e desejo... Há apenas saudade pulsante.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Ridículo, amor, ridículo...

  O barulho antigo de consultório odontológico com as mais atualizadas ferramentas. Não importa o quanto avancem, o som continua familiar.
  E aqui estou: conversas descontraídas e outras sérias enquanto os olhos permanecem hipnotizados por uma tela. Os meus dedos estão ágeis e não se deixam abalar pelo frio suave de hoje. 
  Há quanto tempo as mãos comunicam quando a boca se recusa falar? 

  Faleceu Rubem Alves. Suas obras são plausíveis e de percepções emuladas. Ainda assim, não me considero grande fã. No entanto, vi uma frase que, segundo terceiros, é dele. Gostaria de compartilhar; 

"Cartas de amor são escritas não para dar                                  notícias, não para contar nada, mas para                                  que mãos separadas se toquem ao tocarem                                  a mesma folha de papel."

   Certamente isto é muito poético. Concordo, ainda que seus correspondentes não tenham se dado conta de forma explícita sobre isto. Mas não estou de acordo com tudo nesta citação. "Para contar nada"? "As cartas de amor, se há, amor, tem de ser ridículas", revelaria-nos, Fernando Pessoa. Então, aqui eu diria: As cartas de amor, além de aproximar o toque de quem está longe, conta-lhe o que talvez seja óbvio e dito várias vezes de inúmeras formas: a ridicularidade dos sentimentos. 

   Apenas sentimentos que se colocam ao ridículo, se opõem ao sensato, lógico e razoável. É muito comum perceber o rídiculo quando o sentido do sentimento se esvazia. Então, sobra apenas uma lógica razoável: "Como pude ser tão ridícula?". Ora, "o amor é o ridículo da vida", diria-nos Cazuza. Receio que amar não é apenas verbalizar. É fazer uso do verbo. Só se ama, amando. É apenas amando que nos entregamos... Há no amor uma extravagância (sinônimo de ridículo).  Amando sai do estado comum, da familaridade e concebemos o singular. Sim, singular; ninguém pode amando do modo como amo. Cada qual faz uso do verbo à sua maneira. 

  Quantos sentimentos são ridículos? Quantas cartas vão dar notícias dessa ridicularidade e cessar a saudade no ato de tocarem a mesma folha? 

  Nos tornamos aversivos ao toque? Apáticos, talvez. Os dedos que hoje tocam com rapidez o teclado, dançavam com a pena ou a caneta ontem! Uma dança de rastros e cheiro.

   As cartas revelam os sentimentos singularmente ridículos... Um ridicularidade íntima que só daremos conta quando não for mais extravagante.

  O que escrevo, vai sem o toque e nada fora do comum. Escrevo-te com a simplicidade das pausas possíveis entre o som dos dedos sobre o teclado... Embora, estas palavras não exalam o perfume da tinta, poeira ou cola, e tão pouco trata-se de sentimentos ridicularizados, elas acontecem como as palavras digitais que encontrei de Rubem Alves: excitar uma percepção singular sobre algo. Ainda que esta reflexão não esteja à altura de emulada e apreciável. 

O barulho odontológico parou e voltou... as mãos continuam tocando sem dançar.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

2 dedos apenas

Estive a pensar sobre a última postagem. "Estive a pensar?"

Bom, talvez tenha sido um pouco melancólico, dramático e até quem sabe, desnecessário de ser compartilhado. Mas veja, o que te escrevo, vem da transparência dos pensamentos rascunhados... Algumas vezes, como já admiti aqui, não releio. Assim, irás até ti a transparência desses pensamentos com falhas gramaticais e tudo. Gosto de pensar que esta é a maior prova que posso lhe entregar; não sou mais e nem menos! Aliás, sou nada... Sou o meu estado de ser. Aos meus antigos post, só a ignorância e a sabedoria possível daquele momento. Nada além.

Já que citei o "momento", também estive a pensar sobre o tempo... Sobre como a vida pode mudar aos poucos, sem nos darmos conta e como após, resta-nos a reflexão da radicalidade silenciosa que nos abraçou.

Como exemplo, há dois anos, lamentava a ausência de alguém que "não tive, mas quis muito ter" (Lispector). Claro, tinha outra rotina, outras ilusões e desencantos. Agora? Agora a vida, de forma generalizada, parece como esta madrugada: sigilo. Mas o que esta calmaria toda veio a oferecer? Reflexão, talvez...

Sobre o tempo vivido, compartilho o que escrevi meses atrás:

( Por favor, leia com carinho)

O silêncio é a melodia que permite os meus pensamentos cantarem.
Ondas insensíveis aos olhos, você não pode vê-los.
Lembrei de ti!
(Há quanto tempo estou lembrando?)

Ah, a cidade permanece a mesma;
Carros preenchendo ruas, buzinas presentes, e a estrada velha.
Tudo velho e novo.

Será que é o tempo que trás a mudança ou será que nossos comportamentos modificam as coisadidades?
Eu mudei. Sinto que mudei. Quase posso ver-me antes, na sua recente partida.

Rodas de conversa
Andançaas e prozas
Tudo velho e novo

Lembrança antiga e esquecida,
Por vezes lembrada.


Não, não sou poeta. Quando lhe peço carinho, peço também que considere o que não sou: não sou poeta... Mas minhas vivências tem poesias, não haveria outra forma de não ser! Já que poesia faz andanças com a nostalgia, as paixões, as ilusões e o sentido de combiná-las com rimas.

Peço-te licença agora... A madrugada agora faz-se sono!

sábado, 28 de junho de 2014

Relato de apego

Quinta-feira, 26 de Junho, 8h.

Estava dormindo quando meu irmão anunciou: "O Appa morreu". Em meio ao desvaneio, em que parece que a sabedoria não parece guiar a razão de "estou acordada" ou não, respondi: "mentira".
Meu irmão que costuma brincar sobre diversos temas, jamais ousou brincar com a morte. Sentei-me na cama e talvez a minha expressão de descrença e sono, deu lugar ao desespero: "Morreu?!". Ele assentiu com a cabeça e repete o anúncio: "Morreu. Tá lá na calçada da vizinha".

Engraçado como parece que as suas orientações básicas: levantar da cama, colocar algo nos pés para que não tenhas um choque com o chão gelado, trocar de roupa, escovar os dentes,... mostram-se desordenados. Levantei em um pulo e caminhei em passos largos até a porta que permitia ver a rua. "Você está de pijama". "Estou de pijama? Me trocar". Coloquei a primeira roupa que avistei: uma legue vermelha com uma blusa antiga de "Não use drogas". Penteei o cabelo com as mãos, lavei rapidamente o rosto e a boca e me lancei desorientada na rua.

Há poucos metros de distância, eu avistei a criaturinha de pêlos escuros que mais amei durante esses três anos e pouco: meu cachorro.
Ele estava de costas, deitado rente ao meio fio. Os olhos abertos e sem nenhuma evidência de atropelamento. "Meu lindo... O que houve?", as poucas palavras praticamente mudas que se soltaram ao ar. A imagem dele embaçou e as lágrimas escorreram pelo rosto sem dó. Eu o alisei e queria abraçá-lo... O corpinho ainda aquecido pelo sangue quente... por um segundo duvidei se realmente estava sem vida. Acariciei-o no rosto, como costumava fazê-lo, e então vi um líquido escorrer pela sua boca.

Eu o via em intervalos: as lágrimas não cessaram.  Lembrei do seu primeiro dia em casa, em como eu fiquei fascinada pela beleza graciosa dele. Os olhos grandes e em tom castanho escuro, parecia causar receio em alguns, mas à mim, sempre foram meigos e expressivos.

Minha mãe se aproximou com uma caixa e o colocamos. (Pouparei você aqui de alguns detalhes).
Entramos e o coloquei na mesa que fica no quintal, rodeada de flores e onde o flaguei algumas vezes sentado ou deitado. Continuei o acariciando e inevitavelmente, chorando... (Incrível que nem mesmo uma Lua em Capricórnio consegue 'controlar' as emoções neste momento).
Eu olhava para meu outro cachorro, como se dissesse: "Perdemos ele, amor". Não sei se ele realmente retribuía a compaixão, ou se só estava absurdamente calmo, me olhando.

Decidi enterrá-lo no sítio da minha avó que não ficava muito longe. No meio do caminho, descobri, em duas versões, o que havia acontecido.

Talvez seja de suma relevância constatar que, o meu pequeno ente querido era conhecido por amigos, vizinhos e familiares como "estressado" ou "mau humor". Essa fama se deve aos seus modos de se manifestar, muitas vezes com latidos e rosnadas. Nunca mordeu alguém, exceto eu quando tentei separá-lo de uma briga com o meu outro pequeno amado. Fora este fato, bastante compreensivo até, nunca atacou.

Moro ao lado de uma escola infantil, e por alguma ou ausência de razão, ele não suportava carros. Corria atrás deles como podia. E junto à isto, eu, que não moro só, convivo com pessoas afetivas de opiniões opostas. Bem, não tanto oposta assim... Ele gostava de passear às manhãs e  noites. Aliás, ele adorava passear em qualquer horário. "Vira-e-mexe", como diria minha mãe, ele arranja um jeito para escapar para rua. No entanto, tanto as manhãs como as noites calmas, ele tinha acesso livre para passear. Percebemos que isso o deixava mais calmo... e quando sol estava se pondo e a noite se aproximava, eu mesma caminhava com ele e o outro, numa praça próxima de casa.

Este era só mais um dia que passeava e, em dois minutos já estava ao pé da mesa, disputando por um pedaço de pão francês. Mas neste dia, ele não voltou. Ouviram um gemido na calçada e foram ver. Lá estava ele gritando (o que chamaram de dor), seguido de tremedera no corpo todo (ao qual chamaram de convulsão). E depois... já sabemos.

Um vizinho disse que ele corria rente ao pneu de um carro, quando ao cair (não sabendo se ele bateu no meio fio com a cabeça ou foi apenas o pneu), levantou e caminhou até a calçada da vizinha.

O som da inchada com a terra seca, parecia discussão. A inchada bateu várias vezes até a terra, aos poucos, começar a seder. E lá estava eu, segurando nos braços a caixa com o corpo. (Sim, agora era só o corpo).
Agora lembrando, gosto de pensar que ele apenas estava adormecendo.

O colocamos no buraco improvisado, o corpo tosado, cuja tosa foi feita no sábado anterior por mim. A primeira e última tosa...

Desculpe se pareceu dramático. Os sentimentos quando se encontram com facticidades como estas, tendem a ser melancólicos. Acredito que há na saudade o tom menor, como desintonia com o movimento do agora.

Como diria a própria Medeiros:

"Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche."


De quinta para cá, mergulhei em trabalho. Nem livros ousei ler. Qualquer oxigênio que possibitasse lembrar, evitava. Alguns momentos deu certo, outros não. Apesar do trabalho e estar com os amigos à par da situação, chegar em casa era vê-lo à minha espera. Aí que penso ser uma boa sacada da Martha: "Saudade é não saber". Não há receita pronta que nos oriente o que fazer quando a lembrança parece ser bem melhor que a realidade. Até mesmo acariciar o outro, é lembrar.

Lembro dele a todo momento e em qualquer canto da casa. Lembro dele enquanto abro um sorriso para os amigos, embora o pensamento esteja nele. Esteja em voltar para casa e não vê-lo, em não escutá-lo latir. Sinto falta do cheiro. Sim, eu adoro o cheirinho deles.

Uma amiga há uns pares de anos atrás me disse: "Saudade é não saber se você viveu mil dias sem alguém ou se viveu o mesmo dia mil vezes". Talvez essa seja a sensação do agora.

Assim, escrevo muito mais para registrar ou para aliviar. Escrevo do meu apego. Eu gostaria de dizer para ele antes deste fato, o quanto eu o amava, o quanto continuaria amando. Mas sei que em três anos e mais alguns meses, o amei com toda a intesidade possível. Eu o abracei até mesmo, logo depois que ele me mordeu...

E por fim, ontem olhando para o lugar que ele foi enterrado, lembrei de uma conversa com uma professora querida, de um mês atrás, mais ou menos nestas palavras:

"Permitir que nossos entes se vão. Permitir que eles possam morrer..."

O afeto não está no físico, não está no alcance da visão e nem nas distâncias... Não está no outro! Amar só existe amando. Só se ama praticando. Ainda que o ame com toda intensidade de amar, quero permitir que ele se vá. Afinal, ele morreu como viveu: livre.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Uma descrição

Saudações, leitor. Sei que na publicação anterior, não expliquei o motivo do título, uma vez que nem citei o livro ou filme. Receio que a intenção não era explicar mesmo. Acredito que toda explicação tem por função a sentença de uma reflexão, de um contexto, um pensamento,... e assim por diante. A minha proposta aqui não cabe explicações. Não quero explicar nada. Se algum pensamento me escapa nessas palavras como dado e concluído, peço minhas sinceras desculpas. Sou distraída demais e por vezes (para não dizer constantemente), não faço releituras das minhas próprias palavras 'dadas' aqui.

O que chega até teus olhos, são pensamentos espontâneos. Assim, permito-me em liberdade, mudar de ideia ou palavras. Algumas pessoas podem nomear de "contraditório", mas prefiro chamar de "pensamentos transitórios", aos quais, não tem obrigação alguma a casar-se com algo e dar-se por definitivo e acabado.

Voltando ao título anterior, escrevia sobre solidão.  Afinal, o que eu tinha na cabeça para escrever solidão e colocar um título daqueles? Bem, em primeiro ato, devo comunicar que um dos fatos que chamou-me a atenção escandalosamente, não foi apenas a presença da doença em si, mas a autenticidade da solidão que havia. Uma via que está na contramão do que consigo observar. Conhecidos próximos que estão em desespero gritante (alguns sem se darem conta), por não terem alguém. Não de amor, não de história... Mas de status. Uma busca não pela felicidade, mas por um lugar nessa sociedade que diz que "felizes para sempre", só com príncipe (ou princesa).

Aí reside a magia que sobressaltou-me os olhos: tanto Hazel quanto Augustus, não se limitam a beleza dos olhos. Se conectaram pelo conhecer, pelo compartilhar dos dias... O romance físico mesmo, só acontece após um tempo.

Quantos conseguem esta proeza de conexões que não partem do corpo?

ATENÇÃO! Não quero ser desagradável... O que será escrito a seguir, pode ser considerado SPOILER...

Pronto. Agora a liberdade de escolha é sua.

Não, não estou aqui defendendo a castidade. Não teria moral e seria um tanto quanto hipocrisia da minha parte falar sobre. Claro, seria egoísta também pensar em conexões corporais apenas me referindo ao ato sexual. Excluindo os abraços, as mãos entrelaçadas e até mesmo a dança...

Os personagens conseguiram essas conexões igualmente. O sexo pareceu a forma máxima que ambos conseguiram expressar seus sentimentos. Por essa via, o sexo parece como um texto: a máxima expressa de um pensar do autor. Esquecemos os espaços vazios quando há palavras.

Mas não havia apego ao sexo em si, mas no sentido.

Isso me lembrou um poema do Baudelaire. Um frasco vazio esquecido em um baú, cujo vidro já não guardava mais o líquido, mas a essência. Quando Augustus não se faz mais presente como o líquido: sua essência permanece.

Seria este o merecimento pelo envolvimento do outro não só como mais um corpo? Não só como mais um 'alívio pelo peso do meu estado civil'?

Desculpe, deixo-te aqui.
Volto em breve. Até lá.