quarta-feira, 23 de julho de 2014

Ridículo, amor, ridículo...

  O barulho antigo de consultório odontológico com as mais atualizadas ferramentas. Não importa o quanto avancem, o som continua familiar.
  E aqui estou: conversas descontraídas e outras sérias enquanto os olhos permanecem hipnotizados por uma tela. Os meus dedos estão ágeis e não se deixam abalar pelo frio suave de hoje. 
  Há quanto tempo as mãos comunicam quando a boca se recusa falar? 

  Faleceu Rubem Alves. Suas obras são plausíveis e de percepções emuladas. Ainda assim, não me considero grande fã. No entanto, vi uma frase que, segundo terceiros, é dele. Gostaria de compartilhar; 

"Cartas de amor são escritas não para dar                                  notícias, não para contar nada, mas para                                  que mãos separadas se toquem ao tocarem                                  a mesma folha de papel."

   Certamente isto é muito poético. Concordo, ainda que seus correspondentes não tenham se dado conta de forma explícita sobre isto. Mas não estou de acordo com tudo nesta citação. "Para contar nada"? "As cartas de amor, se há, amor, tem de ser ridículas", revelaria-nos, Fernando Pessoa. Então, aqui eu diria: As cartas de amor, além de aproximar o toque de quem está longe, conta-lhe o que talvez seja óbvio e dito várias vezes de inúmeras formas: a ridicularidade dos sentimentos. 

   Apenas sentimentos que se colocam ao ridículo, se opõem ao sensato, lógico e razoável. É muito comum perceber o rídiculo quando o sentido do sentimento se esvazia. Então, sobra apenas uma lógica razoável: "Como pude ser tão ridícula?". Ora, "o amor é o ridículo da vida", diria-nos Cazuza. Receio que amar não é apenas verbalizar. É fazer uso do verbo. Só se ama, amando. É apenas amando que nos entregamos... Há no amor uma extravagância (sinônimo de ridículo).  Amando sai do estado comum, da familaridade e concebemos o singular. Sim, singular; ninguém pode amando do modo como amo. Cada qual faz uso do verbo à sua maneira. 

  Quantos sentimentos são ridículos? Quantas cartas vão dar notícias dessa ridicularidade e cessar a saudade no ato de tocarem a mesma folha? 

  Nos tornamos aversivos ao toque? Apáticos, talvez. Os dedos que hoje tocam com rapidez o teclado, dançavam com a pena ou a caneta ontem! Uma dança de rastros e cheiro.

   As cartas revelam os sentimentos singularmente ridículos... Um ridicularidade íntima que só daremos conta quando não for mais extravagante.

  O que escrevo, vai sem o toque e nada fora do comum. Escrevo-te com a simplicidade das pausas possíveis entre o som dos dedos sobre o teclado... Embora, estas palavras não exalam o perfume da tinta, poeira ou cola, e tão pouco trata-se de sentimentos ridicularizados, elas acontecem como as palavras digitais que encontrei de Rubem Alves: excitar uma percepção singular sobre algo. Ainda que esta reflexão não esteja à altura de emulada e apreciável. 

O barulho odontológico parou e voltou... as mãos continuam tocando sem dançar.

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