domingo, 23 de dezembro de 2012

P/P/F


  

   Hoje estava vendo o programa "Esquenta", exibido na Rede Globo e confesso que nunca me interessei muito por essa atração na TV. Por falta de vontade, tempo ou até mesmo oportunidade. ( Por quê não?). E no programa exibido neste domingo, contava com uma atriz que aprecio deveras, que é a Fernanda Montenegro. E ela comentou sobre alguns de seus trabalhos, livros que gosta, entre outras passagens. E no meio desse encanto que Fernanda consegue oferecer através da sua fala - bem articulada, ao meu ver -, ela citou uma escritora - Simone de Beauvoir - que honestamente, leitor, desconhecia até o momento. Então, Fernanda disse que ela escrevera algo que concordava e decidiu assim, citá-lo.  Que foi o seguinte trecho:

"A impressão que eu tenho é de não ter envelhecido embora eu esteja instalada na velhice. O tempo é irrealizável. Provisoriamente, o tempo parou pra mim. Provisoriamente. Mas eu não ignoro as ameaças que o futuro encerra, como também não ignoro que é o meu passado que define a minha abertura para o futuro. O meu passado é a referência que me projeta e que eu devo ultrapassar. Portanto, ao meu passado eu devo o meu saber e a minha ignorância, as minhas necessidades, as minhas relações, a minha cultura e o meu corpo. Que espaço o meu passado deixa pra minha liberdade hoje? Não sou escrava dele. O que eu sempre quis foi comunicar da maneira mais direta o sabor da minha vida, unicamente o sabor da minha vida. Acho que eu consegui fazê-lo; vivi num mundo de homens guardando em mim o melhor da minha feminilidade. Não desejei nem desejo nada mais do que viver sem tempos mortos."

  Claro que as palavras pronunciadas através de Fernanda, atiçou-me a necessidade de procurar o trecho e poder lê-lo com mais calma e com o encanto mais contido. Apenas para que eu pudesse vê-lo de forma mais nua e sentir, talvez, a energia da própria autora. A minha conclusão? Eu li uma, duas, três e quatro vezes - e sei que irei relê-lo daqui um tempo -, pois a autora colocou com tanta precisão e simplicidade uma observação, uma relação entre passado/presente/futuro, que chega ser gritante pela identificação que me ocorre. Claro que estou sob a influência do mês. Basta ser Dezembro para que um curta-metragem dê início na minha memória, fazendo com que me lembre de tudo que foi vivido este ano e como estava há 365 dias atrás.
  Alguns de nós, em determinadas fases de nossas vidas, nem precisamos relembrar algo; a lembrança convive conosco. E dependendo do grau de sua influência e da força que acontecera, ocorre um sentimento de culpa de ter acontecido de tal forma. Quantas vezes não nos damos o merecido perdão de uma atitude passada, que hoje, vemos com mais clareza que poderia ter feito de maneira mais satisfatória? Passamos os dias remoendo cada segundo do acontecido, na esperança que a ilusão mude algo... Falta-nos o perdão pela ignorância que tínhamos e que é substituída pela culpa. Este trecho fez-me pensar nas coisas pelas quais demorei para perdoar-me, por não saber o que sei hoje e as coisas pelas quais não me perdoarei amanhã, por não saber no presente.
  Ao menos, carrego em mim, que o perdão é a libertação da alma ao reconhecer que sou humana. E que por ser humana, terei sempre a oportunidade de errar. Pois como diz o ditado popular: "É errando que se aprende."

Boa noite, leitor!


FONTE: http://felipekurka.tumblr.com/post/23147362918/a-impressao-que-eu-tenho-e-de-nao-ter-envelhecido 

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